Infâncias - Percursos pelo Acervo do Arquivo e Biblioteca da Madeira
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Trabalho Infantil
“O trabalho infantil abrange as actividades que privam as crianças da sua infância, da oportunidade de desenvolverem as suas potencialidades e da sua dignidade, e que prejudicam o seu desenvolvimento físico e mental.”[1]
Até meados do século XX, na Madeira, as famílias eram muito numerosas. Este cenário era também representativo de todo o país. No entanto, muito mudou ao longo das últimas décadas. A partir da segunda metade da década de 90 do século XX foram tomadas medidas importantes. Em primeiro lugar, aferiu-se a extensão e natureza do trabalho infantil, através da realização de um inquérito nacional junto das famílias com crianças em idade escolar, em 1998 e posteriormente em 2001. Os dados resultantes permitiram identificar a dimensão do problema e consequentemente definir melhor a estratégia de combate ao fenómeno. De acordo com os dados de 2001,”das crianças entrevistadas a grande maioria não trabalhava (88.3%) e quase todas frequentavam a escola (98,1%). No entanto 4% declararam exercer uma atividade económica.” [2]
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Família
“Nunca é de mais afirmar que a família é o núcleo mais importante da vida da criança […].”[1]
Sendo assim, quando não existia uma família como estrutura de apoio à criança, eram criados mecanismos para suprir essa inexistência. «No século XIX, delimita-se a linha fronteiriça entre a família e a comunidade. A família torna-se mais privada, com características de domesticidade, restringindo os laços exteriores. Assim, a criança começa a ser vista como um sujeito especial e a família tem a responsabilidade de primar pelo seu desenvolvimento até à vida adulta.»[2]. «O núcleo familiar era estruturado de forma diferente da actual; funcionava como um clã, em que os avós ocupavam um lugar especial [e] eram amados e respeitados como fiéis depositários de saberes e tradições seculares, sendo os responsáveis pela transmissão do saber da comunidade às novas gerações.»[3] Guerra Junqueiro, na sua obra poética, apresenta-nos uma outra realidade, a das crianças desprotegidas. Com efeito, no Portugal contemporâneo de Junqueiro, havia um número incontável de crianças desfavorecidas. - «É triste numa idade toda esp’rança/ Não ter nem pai, nem mãe, um só abrigo…/ Ai! custa, custa tanto!…» 4]
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Brinquedos e Jogos
A existência do brinquedo remonta à Antiguidade Clássica e o ato de brincar é tão antigo como a própria Humanidade. Focamos a nossa atenção em alguns dos brinquedos e formas de brincar mais representados nas nossas coleções, entre os séculos XVIII e XX.
«Embora o jogo e o brinquedo se complementem, muitas vezes eles são de natureza diferente. Segundo Brougère (1995)[1] o brinquedo, não parece definido por uma função precisa: trata-se antes de tudo de um objecto que a criança manipula livremente, sem estar condicionado a regras ou a princípios de utilização de outra natureza. […] O jogo pode ser destinado tanto à criança quanto ao adulto e, em geral há regras de utilização mais determinadas.»[2] No século XVIII «quem ditava o calendário e o teor das brincadeiras [no campo] era a liturgia, com os seus mistérios, procissões, feiras e romarias locais onde se dançavam rodas e toda uma variedade de jogos com paus e bolas, além do pião».[3] Neste período, a vida em comunidade prevalecia sobre a intimidade e a partir desta altura os jogos passam a assumir uma importância fundamental nas atividades lúdicas. Segundo Ariès[4], eram um dos principais meios que a sociedade dispunha para fortalecer os seus laços coletivos. No entanto, no século seguinte, o recurso ao jogo entrou em declínio.
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Educação
«No período medieval, a educação era desenvolvida em estreita simbiose com a Igreja [e dela] partiram os modelos educativos e as práticas de formação.»[1]
A escola, como a conhecemos, é um produto da Idade Média. Apesar dos pontos de contacto com o modelo medieval, muitas transformações ocorreram desde então na escola, como o demonstram as fontes documentais que apresentamos. Luís António Verney com a publicação da obra O verdadeiro método de estudar, em 1746, aponta o atraso do sistema educacional português e critica os valores e costumes enraizados na cultura portuguesa desde o século XVI, com a entrada dos Jesuítas em Portugal. Propõe uma mudança radical dos métodos e princípios do sistema educacional. As reformas pombalinas da instrução pública (1772) vieram retirar o controlo do ensino aos Jesuítas, que passou ao domínio do Estado. Inicia-se uma reestruturação do sistema da educação pública, tal como defendido por Verney.
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Saúde
«Em geral, até à segunda metade do século XVIII, os médicos, […] demonstraram pouca apetência para se deterem nos aspectos que se relacionavam com a gestação ou com os primeiros anos de vida.»[1]
No entanto, é a partir desse período que ocorrem grandes transformações ao nível da assistência médica, refletindo-se no aumento da esperança de vida das crianças. No século XVIII havia vários riscos associados à gravidez e ao parto. Curvo Semedo compilou em Polyanthea medicinal os principais problemas associados ao parto, entre outros, dando também indicações acerca dos métodos mais eficazes para os solucionar. Por exemplo, se no momento do parto a criança parecia de pouca resistência ou a mãe estava fraca, sugere-se dar-lhe “gemas de ovos batidas com vinho, e marmelada, e chocolate, feito em caldo de perdiz, com gemas de ovos, cidrão assado molhado com vinho, pão de ló molhado em caldo de galinha avinhado».[2] Relativamente às maleitas, «num tempo em que as condições sanitárias e os hábitos higiénicos eram deploráveis, era fácil as crianças contraírem as mais variadas doenças.
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Escrita para a infância
A literatura para crianças em Portugal tem início mais evidente a partir do século XIX, ainda muito associada à sua função educativa e moralizadora.
A partir da década de 70 desse século, figuras de referência na literatura portuguesa, como Eça de Queirós e Guerra Junqueiro, refletem sobre este género literário e produzem também textos para a infância. Junqueiro foi responsável pela adaptação de muitos contos dos irmãos Grimm na obra Contos para a Infância (1877). Eça de Queirós, em Cartas de Inglaterra, escreve o que se considera a primeira crítica sobre literatura infantil portuguesa, traçando o cenário no nosso país em comparação com outros países europeus: «A Bélgica, a Holanda, a Alemanha, prodigalizam esses livros para crianças; na Dinamarca, na Suécia, eles são uma glória da literatura e uma das riquezas do mercado. Em Portugal nada.»[1]
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